terça-feira, 20 de julho de 2010

OS MENINOS DO IPIRANGA

Minha família por ter comércio sempre mudou muito de residências, e até de cidades, e o período que considero a minha verdadeira infância foi no bairro do Ipiranga, aqui em São Paulo, metade das histórias que já postei aqui foram vivênciadas lá. Ali viví dos meus 7 anos até os 14 anos, precisamente na Rua Visconde de Pirajá, 339 - Alto do Ipiranga.
Todos os dias a molecada estava aprontando uma, as vezes coisas de minha autoria e planejamento, e outras vezes não. Brincávamos de bolinha de gude, carrinho de rolemã, pega-pega, cela... eram inúmeras brincadeiras, não dá nem para coloca-las aqui. Ali nós éramos cantores, compositores, ciclistas... e etc.

Da nossa turma eram:

Akira (O japonês): Ele por ser mais velho tinha uma certa liderança, muitas vezes atacada por mim, pois não aceitava tal situação e acabava tomando cascudo... Muitas vezes pegávamos minha mobilete e ficávamos mexendo com todo o mundo na rua que passávamos... era muito cómico, até que um dia estava em um Super Mercado com meu pai e um senhor me reconheceu como o arruaceiro da mobilete, e falou um monte para mim.

Zoião (Sidney) : Era sempre motivo de chacota da turma, por usar uns óculos fundo de garrafa. E eu que sempre tive muita habilidade de imitar as vozes, eu imitava a mãe dele o chamando (Vocês viram o Sidney???), e foi muitas vezes motivo de porrada. Infelizmente o Sidney veio a falecer a uns anos atrás em uma briga de bar.

Zé Luiz: Esse era o artista da turma, desenhava, fazia música para brincar com os outros... a última vez que tive contato, ele estava morando na Inglaterra, mas isso já fazem uns anos. Entre os clássicos da nossa turma e ele fez uma paródia da "Pinga em mim" do Sérgio Reis - para "Pinga ni eu" brincando com o pai do Akira que gostava de umas caninhas.

Ricardo: Meu vizinho, passávamos tardes e tardes, inventando alguma coisa... ele estava sempre em minha casa e eu na dele. Certa vez tomei um direto no olho recém operado, depois de uns dias acertei um na dele, e ainda quebrei o vidro do carro do pai dele com um chute... as coisas eram bem leves... Sempre tenho contato com ele, hoje um pai de família.

Rodrigo: Irmão do Ricardo, sempre estava conosco nas brincadeiras. Infelizmente veio a falecer no começo de 2010.

Marquinhos: Esse era meu fiel escudeiro, a maioria das "merdas" ele estava junto comigo, muitos pensavam que éramos irmãos. Certa vez ficamos muito tempo sem se falar por uma cagada que eu fiz, e merece que eu conte:
Atrás das nossas casas tinha uma casa abandonada, e as vezes pessoas desconhecidas invadiam tal lugar, era muito perigoso, e uma certa manhã nós fomos para lá para tirar as telhas do lugar, para evitar que invadissem a tal casa. Eu subi no telhado dessa casa e quando fui descer vi o Marquinhos colocando umas pedras para dificultar minha descida no muro por brincadeira, eu para assustar ele peguei uma telha e fui jogar perto dele, só que quando joguei ele se mexeu e acertei na mosca a cabeça dele... 
Foi um escândalo, por mais que pedisse desculpa ele nunca acreditou que foi sem querer. Mas foi sem querer viu Marquinhos!!!!  mas depois passou e continuamos amigos. (eu sou o de branco na foto, e o Marquinhos de azul)

A turma era muito criativa, foram momentos brilhantes vividos ali... este lugar fica mesmo ao lado onde é hoje a estação de metrô Alto do Ipiranga, que aliás onde eu trabalhei em uma farmácia do Sr. Saito, onde agora é justamente a entrada do metrô... demoliram a farmácia e também a bicicletaria do João que ficava ao lado, ponto frequente das nossas bicicletas.

Memórias... escrevo isso é como voltar lá...

Mas o Marquinhos... foi sem querer mesmo a telha... não esqueça que eu era ainda meio vesgo... O que poderia esperar?

Mapa detalhado do lugar:

 

terça-feira, 1 de junho de 2010

MARVADA PINGA

Quando o assunto é bebida é comigo mesmo... Sim!!! desde que não seja alcoólica, pois é!! sou um péssimo bebedor, e não por religião ou algo assim, é porque realmente não tenho prazer nenhum em dar umas tragadas. Não vejo graça, bebo as vezes para acompanhar alguém, e que seja uma boa coisa: vinho, cerveja ou até uma cachacinha, mas sempre de primeira qualidade, e nada de exageros, motivo? bom...
O motivo faz me faz lembrar uma passagem do filme Chuva de Milhões, em que o camarada para receber uma herança de U$ 300 milhões do tio que havia morrido, tinha que gastar U$ 30 milhões em um mês (essas coisas não acontecem comigo) sem deixar nenhum bem, e nem doar o dinheiro ou contar para alguém.Tudo isso porque o tio havia tido uma experiência quando pequeno, seu pai o havia pegado fumando cigarro, e para que ele se livra-se do vício comprou vários maços de cigarro e o trancou dentro do guarda roupa, e só sairia de lá quando ele fumasse o último cigarro... Enfim, ele pegou um nojo tremendo de cigarro e nunca mais fumou. E como ele sabia que o sobrinho era um grande gastador, então resolveu fazer essa cláusula de herança para que ele enjoasse de tanto gastar dinheiro, e não torrasse os U$ 300 milhões.

Bom dei essa volta toda, para falar que tive meu "Chuva de Milhões" com a "marvada" pinga, só que não foi meu pai que me afogou de cachaça, foi eu mesmo por livre e espontânea vontade.

Eu tinha mais ou menos uns 17 anos, e fizeram uma reunião entre amigos, nós saindo da adolescência, nos achávamos "hominhos" só que éramos todos uns pé rapados, não tínhamos dinheiro para nada, mas então apareceram lá com umas garrafas de Velho Barreiro, e para gente não tomar assim pura, inventaram de misturar Tang de marácuja. Bebi muito, muito mesmo sozinho acredito que bebi mais de uma garrafa, eu me sentia como bebendo água, fui bebendo e nem pensei no perigo.

Depois disso só me lembro de partes, lembro de estar na rua já, de trocar ideia com o portão, (perguntava para ele porque ele era tão fechado, pode?!) conversar com os cachorros e gatos que eu via na rua... de me segurarem, declarar amizade aos meu amigos (bêbado adora isso né?!). Mas o que iriam fazer comigo? naquele estado me levar para minha mãe e falar o que? e eu ainda insistindo que não estava bêbado, ele estavam dando um tempo para ver se eu melhorava, mas estava cada vez pior.

Mandaram chamar minha irmã, quando minha irmã me viu, ela dava muita risada, porque há anos atrás eu tinha dado um baita "esporro" por ela estar em uma situação parecida. Então estava pronta a sua vingança para comigo, mas acham que ela ia me detonar? Não me detonou, acho até porque sabia que um dia podia precisar de meus serviços de caridade pós-cachaçada.
 
Minha irmã me pegou pelo braço e disse:

-Olha eu te ajudo a entrar em casa, mas você tem que disfarçar que está tudo bem, se não você tá ferrado!!! e eu respondi para ela quase sem conseguir falar:

- Masssss eu to bem, (gup) não"precissssso" de sua ajuda, eu to bem... olha minha cara... QUALQUER UM PERCEBE QUE EU ESTOU BEM, né?! você quer brigar comigo? "Quiem" você pennnnsa que é? Bom.. Você sabeee que eu te amo né? então não me ferra... porque eu to mal messsssmo (Gup).
Eu estava em uma confusão só. Então ela me aconselhou de novo:
-Olha então cala sua boca e vamos lá, tenta ser o mais normal possível para entrar em casa, eu te coloco na cama e ai é tranquilo.
Depois dessas instruções nos dirigimos para minha casa, minha irmã me segurando pelo braço e eu trançando as pernas e tentando falar alguma coisa mas não conseguia.
Chegamos na frente da porta, então ela olhou para mim e falou para eu ficar reto, arregalar o olho, porque estava com ele igual de peixe morto, me endireitou e bateu na porta.
Meu pai abriu a porta, e eu, fiquei parado, minha irmã me cutucando, e eu sabia que não conseguia nem dar um passo sem dar uma bandeira, fiquei travado lá parecendo uma estátua olhando para cara do meu pai, meu pai ficou olhando para mim com uma cara de questionamento e me medindo, até que meu pai falou:
-Como é rapaz... vai ficar ai parecendo um espantalho olhando para minha cara.
Acho que ele percebeu ali a minha falta de lucidez, então caminhei para dentro de casa, só que meu pai brincando comigo me deu um empurrãozinho nas costas quando passei por ele, foi meu fim... eu passei pela sala tentando me manter em pé, e fui cair dentro do quarto de meus pais que era de frente para onde estava caindo, tentando manter o equilíbrio, acabou ali qualquer tentativa de disfarce, fiquei no chão esparramado, esperando alguém me levantar.
Engraçado que depois desse fato, não me lembro de muito mais coisas, ai as coisas ficaram totalmente desconexas, foi minha última tentativa de parecer lúcido, a seguir coloco abaixo por ordem o que eu lembro:

  1. Minha mãe fazendo um café muito amargo para mim. (horrível)
  2. Eu estava na cama, e começo a passar mal.
  3. Alguém me colocando em baixo do chuveiro.
  4. Eu sentado do lado da privada no chão, e falando para minha irmã que nunca tinha notado como a descarga é legal, ela roda... (ridículo, he he he)
  5. Apaguei...
No outro dia, acordei no sofá de casa, com a cabeça parecendo que ia explodir, ainda meio confuso com o que havia acontecido comigo. Nunca tinha bebido tanto, e para falar a verdade, poucas vezes tinha colocado álcool na minha boca, tudo me parecia ter sido um sonho, eu tentando lembrar de alguma coisa, não conseguia nem mexer a cabeça no travesseiro. Lembrei de ter tomado banho, mas sabia que não poderia ter feito aquilo sozinho, mas tinha dúvida se tinham me dado banho mesmo, então olhei a minha cueca, e vi que era outra da noite anterior, ou seja tinham me trocado.

Comecei a ficar com muita vergonha, pensando em quem  tinha me dado banho, se meu pai, ou minha mãe, ou até minha irmã, não acreditava naquilo. Tomei coragem chamei e perguntei para minha mãe, ela me disse que tinha sido meu pai, e isso foi um certo alívio para mim, tinha vergonha mas menos mal. Mas logo a seguir veio o infeliz cometário da minha mãe:
- Nossa!!! seu pai me falou de como você cresceu e virou homem... (ahhhhhhhhh)
Meu Deus, foi o dia inteiro com a cabeça em baixo do cobertor e sem perguntar mais nada.

Fiquei muitos anos, sem poder sentir cheiro de pinga ou de Tang de Maracujá, mas no fundo acho que minha "Chuva de Cachaça" valeu... 

segunda-feira, 17 de maio de 2010

ATARI

Quem nunca quis ou não viu um Atari ? lógico que muitos dessa turma mais nova não sabe nem do que eu estou falando, mas quem tem perto de 30 anos, sabe muito bem. Esse vídeo game que me tirou o sono muitas vezes, que fez muitas vezes minha mãe levantar a noite para ver o que era aqueles sons eletrônicos mono, que hoje daria vergonha perto de um Playstation 3 e eu que tinha que desligar correndo e fingir que estava dormindo por qualquer som vindo da porta do quarto dos meus pais, muitas vezes deixando o jogo do jeito que estava, não dava para salvar o jogo e continuar depois.
Demorei para ganhar o meu próprio vídeo game, quem me conhece sabe da minha paixão por games, confesso que hoje um pouco mais abrandada devido aos compromissos que adquiri, mas estou sempre informado sobre oque tem de novo no mundo dos games.

Minha primeira experiência com um vídeo game, foi na casa de um primo do meu pai, que tinha um console chamado Tele-Jogo, lançado pela Philco, bom o jogo se limitava a dois bastões na tela, cada jogador movia um deles, e tinha uma bolinha (que na verdade era quadrada... Pode?!!) que não parava, então batia em um bastão de um lado, e outro tinha controlar para não deixar passar, rebatendo para o outro lado, como se fosse um imaginário (e haja imaginação) jogo de tênis, com um som que depois de alguns minutos entrava nos ouvidos irritantemente "Poimmm, Poimmmm", enfim para época brilhante... Então passado um tempo veio o Atari e Odyssey esse último nem com tanto sucesso quanto ao primeiro.

Depois de uma longa jornada de pedidos e greves de fome, ganhei meu Atari, só que minha mãe mandou vir do Paraguai por um vizinho que fazia este contrabando, só que o meu Atari veio diferente do sistema usado na época no Brasil, que era Pal-M, o meu Atari era no sistema NTSC, então ele não ficava em cores, funcionava preto e branco, então reclamei para minha mãe e mandaram consertar para fazer a conversão, ficou umas duas semana no conserto, imagina minha angustia e o pior voltou do mesmo jeito, então quando liguei, meu pai falou: -Uéééé tá preto e branco ainda, vai ter que mandar para o conserto. E eu logo disse: -Não, esse jogo é preto e branco mesmo, ele está arrumado!!! (Eu mentindo com medo de ficar mais um ano no conserto) acabou que o vídeo game ficou o resto da sua existência preto branco mesmo, insistiam comigo que estava preto e branco e eu dizia que a pessoa estava cega, que eu estava vendo cor, tenho trauma de assistência técnica até hoje por causa desse fato.
O grande barato era a troca de fitas, emprestava um para o amigo, ele emprestava outro, depois ninguém mais sabia qual era de qual e com quem estava, eu e meu fiel escudeiro na época o Marquinhos vivíamos caçando quem tinha algum jogo diferente para nos emprestar, e soubemos que no final da nossa rua tinha um homem que tinha muitas fitas, que se chamava Miltinho, nome pelo qual não combinava com seu tipo, ele era um negro de uns 2 metros de altura, magro, cara de bravo, mas tinha um pequeno detalhe... vamos dizer... não era chegado ao sexo oposto, era homossexual assumido, ele morava junto de uma rapaz que suponho era seu "marido", eu e o Marquinhos sabíamos da vasta coleção de jogos dele, mas ficavamos com um medo danado de ir lá pedir emprestado e ser puxado para dentro da casa dele, só que nossa vontade de ter outros jogos foi maior, então combinei com o Marquinhos:

-Eu vou lá pedir e você fica do outro lado da rua olhando, se acontecer alguma coisa, qualquer coisa estranha, você chama a polícia. disse eu ao Marquinhos. E lá foi eu... toquei a campainha e ficava olhando para ver se meu vigia estava alerta, nisso aparece o Miltinho na porta, e eu como não queria dar nenhuma intimidade ao nobre homem disse:

- Olá Sr. MiMiMilton... meu nome é Luis e moro aqui na rua, e soube que o senhor tem alguns jogos de Atari e se não te incomodasse gostaria de saber se você não gostaria de me emprestar algum e eu te emprestava outro - eu com a minha voz trêmula.

- PODE ME CHAMAR DE MILTINHO POR FAVOR!!!- disse ele, e eu já com as pernas bambas com um calor no rosto, com os olhos arregalados, então ele me falou os jogos que ele tinha: - Eu tenho o Come-Come, de Corrida, Come-Come, de Aviãozinho, Come-come...

Olha não sei se foi coisa da minha cabeça, mas para mim ele repetiu várias vezes que ele tinha esse tal jogo do Come-Come que é o Pac-Man, minha cabeça começou a fazer um eco (Come Come.. Come Come...)bom, pedi qualquer jogo, nesta altura do campeonato já nem prestava atenção oque ele estava me ofertando mesmo, pedi qualquer um, estava mais preocupado naquele momento para que ele não interferisse na minha educação sexual. Então ele me emprestou um jogo qualquer, saí correndo de lá levando aquilo como se fosse um troféu, quando mostrei ao meu amigo Marquinhos ele teve quase um colapso... Eu tinha pegado um jogo que a gente já tinha, mas enfim, expliquei para ele o caso do Come-Come e ele entendeu o meu tormento, depois já perdemos o medo inicial e íamos sempre pegar as fitas com ele, mas sempre, sempre com um pé atrás.
De todas as fitas havia uma que era proibida para menores, chamava-se X-Man, quem tinha não emprestava, e quem não tinha ficava louco para jogar, era meio que uma lenda se existia mesmo essa fita, o jogo era o seguinte: o bonequinho andava por uma labirinto e tinha que escapar de tesouras e alicates que tentavam cortar o seu "Dito cujo", ele entrava em uma portinha e lá podia pegar sua amada, era o próprio sexo explícito no vídeo game, com aqueles gráficos todos em quadradinhos do Atari. Os moleques mais velhos da rua, todos contavam como era aquilo, e a turma mais nova ficava toda com a boca aberta, louca para ver aquele jogo. Então eu e o Marquinhos novamente saímos a caça ao tesouro de quem poderia ter, imaginamos que o Miltinho poderia ter, mas nunca que íamos pedir a ele, ou mesmo perguntar. Até que um garoto da minha escola disse que seu pai tinha, que me emprestaria com uma condição, se eu emprestasse a ele minha luva de goleiro, ahhhhh não precisou falar duas vezes, no outro dia estava o X-Man na minha mão, corri na casa do Marquinhos para chama-lo, ficamos a tarde inteira jogando aquilo, tinha até posições, para nós aquilo era o supra sumo... quase quebramos o controle de tanta alegria... e ainda tínhamos que jogar escondido, porque se nossos pais pegassem era o fim do Atari.
Mas o fim sempre chega, e chegou ao fim os anos de ouro do Atari, vieram os Nintendos, Master System e por ai vai.

Hoje tenho vídeo game de última geração, com belíssimos gráficos, mas já não tem a mesma graça, a magia ficou com o Atari, com todos seus gráficos ruins, com todos seus jogos toscos, com seus sons medonhos, em que na verdade precisavamos imaginar um homenzinho, um carrinho, um aviãozinho ali naqueles quadradinhos, mas para nós na época era tudo, passar uma tarde em frente ao game disputando com os amigos. E também como podem ver passou dos limites de simplesmente ser um video game, para mim ensinou algumas coisas mais...
Mas ainda acredito que esta nostalgia se dá aos meus jovens anos que também não voltam, e se tornam uma lembrança prazerosa de um mundo inocente e menos complicado.


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