sexta-feira, 7 de maio de 2010

ANTONIO GOUVEIA

Conheci o Sr. António Gouveia em 2002 procurando sobre contos do Mama na Burra, Arranca Pinheiros e Arrasa Montanhas, são contos infantis de origem portuguesa. Procurando no Google sobre as estórias vi que ele citava em uma de suas histórias contadas em seu blog, mas a estória em , ele não contava, então mandei um e-mail a ele perguntando se ele tinha as estórias do tal Mama na Burra, e ele gentilmente disse que não tinha, a não ser algumas lembranças, mas fez questão de ir atrás para mim, procura-las... depois de um tempo ele me apareceu com história completa... Ele havia encontrado um homem que era um contador de histórias populares nas escolas portuguesas então passou a ele a mesma. Depois disso passamos a trocar e-mails frequentemente, e como gostava de ler as histórias dele em seu blog, comecei a ter uma ideia de escrever algumas lembranças minhas, e escrevia e mandava a ele, ele revisava e mandava de volta pra mim, e fui guardando, quando vi já tinha 4 ou 5 histórias da minha vida... Então criei o site, e hoje o blog... Quando estive em Portugal fiz questão de ir lá conhece-lo, uma pessoa fantástica e de uma cultura incrível, sempre ligava no Natal dos seguintes anos, para ele e sua esposa Adalina. Depois de alguns meses eu mandava e-mail a ele e via que não respondia, então fui atrás e descobri que ele havia nos deixado... O Sr. Antonio, faleceu em Março/2008 - Então resolvi colocar uma das histórias dele aqui no blog, segue abaixo uma de muitas que achei interessante e fascinante, eu ia "abrasileirar" o texto, mas deixei exatamente igual postado em seu blog, se não ele vinha puxar meu pé, e quem sou eu para mudar alguma coisa de que essa pessoa tão notável escreveu... somente fiz um parênteses em uma palavra que não é usual em nosso vocabulário no Brasil, para que possa ter um melhor entendimento desse curioso texto, segue abaixo a história:

UMA IDA A LISBOA...
Há dias, coisa que ultimamente raras vezes acontece, atravessei o rio e fui a Lisboa. Esta “ida a Lisboa”, desde já previno, para não ser objecto de maldosas intenções, nada tem a ver com o conhecido anúncio “Casal que venha a Lisboa, telefone tal, local sossegado e discreto” em tempos muito frequente nos nossos jornais. Tal anúncio, aliás, já nem se usa mais. Nem é necessário. Hoje é tudo mais directo, mais objectivo: “ boazona, tenho 20 anos, faço isto e aquilo e aqueloutro, espero-te, telefone nº…”. Não, nada disso, Deus me livre. Até porque a minha vetusta idade me põe ao abrigo de tão malévolas como injustas suspeitas e, sobretudo, de tão iníquas tentações.

A minha ida a Lisboa teve a ver, sim, com uma deslocação ao hospital (IPO). Consulta de rotina, felizmente. Numa das salas de espera, por estranha coincidência encontrei um amigo de escola, o Nunes, que não via há um ror de anos. Exclamações de surpresa, abraços, “Há quantos anos, pá!” “Eh pá, o que tens feito?”, “Onde moras?” “Casaste?” Tens filhos e netos?” … enfim, o habitual em tais circunstâncias, excepto o ser dito em voz ciciada, uma vez que ambos, eu e o Nunes, somos pessoas educadas, ao contrário da maioria das pessoas que, neste sítios e em iguais situações fazem um escarcéu tal que não permite ouvir sequer o nome dos doentes chamados através da voz roufenha dos intercomunicadores.

“E que fazes por aqui”, perguntou-me o Nunes no final das calorosas manifestações próprias de tão inesperado reencontro. “Problemas de pele, coisa sem importância, espero” respondi. “E tu? “Eh pá, se queres que te diga, ainda não sei. Estou à espera do resultado de uma endoscopia para saber da gravidade de um problema que me afecta os intestinos, e devo confessar-te que é com algum cagaço que aguardo esse resultado. “Não há-de ser nada” respondi, com aquela “certeza” que a gente sempre tem quando diz estes inevitáveis lugares comuns..
“Era bom é que, a ter alguma coisa, eu tivesse a sorte do Marques. Lembras-te do Carlos Marques, aquele gajo que morava ao fundo da minha rua, muito conservador, e se formou em direito?”. “Sim, sim e o que aconteceu com ele ?”.Eh pá é uma história do arco da velha, nem dá para acreditar”. E vá de me contar a história do Marques, tintim por tintim, que na sala de espera de um hospital há tempo de sobra para contar nem que sejam as mil e uma histórias das mil e uma noites da Sherazade:

O Marques, rapaz do nosso tempo de escola e agora brilhante causídico numa firma de Advogados da capital, tinha uma problema na vida, infelizmente nada invulgar nos dias que correm. Amava uma mulher e casou com outra. Interesses familiares, inércia, preconceitos… o costume. A mulher, Leonor, era médica e a amada, Isabel, sua amiga de infância e namoradinha de adolescente, era agora sua colega no escritório de advocacia. Dois anos depois de casado já o Marques se tinha arrependido de o não ter feito antes com a doce e dedicada Isabel em vez da fria e frívola Leonor. A sua rígida educação religiosa não lhe permitia, no entanto, imaginar sequer uma situação de divórcio.

Anos depois, ao Marques, na sequência de muitas queixas e após repetidos exames e biopsias foi-lhe diagnosticado um carcinoma com metastização disseminada, ou seja, em linguagem entendível, um bruto de um cancro (Câncer) no estômago, incurável no dizer do médico que o assistia. A menos que um milagre acontecesse, acrescentou o clínico, - que não pareceu ao Marques ser pessoa muito dada a acreditar em tal tipo de curas – mas que, no entanto, porque nunca se deve desistir, lhe prescreveu o recurso, primeiro à radioterapia e posteriormente à quimioterapia.

O Marques, como se compreende, ficou desfeito com aquela autêntica a sentença de morte. Isabel foi o seu grande amparo nos meses terríveis que se seguiram.
A radioterapia falhou, tendo começado depois a terrível prova da terapia química com todos os inconvenientes que se lhe conhecem. O Marques não reagia já a qualquer tratamento porque em verdade ele tinha desistido de viver.

Certo dia em que era suposto estar a dormir no seu quarto, levantou-se para ir até à cozinha e ao passar em frente do escritório, ouviu lá dentro, através da porta, anormalmente fechada, a voz da mulher falando ao telefone. Parou para escutar e ouviu, incrédulo a conversa que jamais tinha sonhado ouvir “Sim, querido, é como te digo… Ele já pouco tempo tem de vida… Como? … Meses, querido, alguns meses apenas… Sim, sim, garanto-te, é só teres um pouco de paciência… claro, podemos então fazer juntos a nossa sonhada viagem às Seichelles e irmos aonde quisermos….Não, não hoje não posso… Sim, sim, amanhã lá estarei, à hora do costume”

“Grande cabra”, conseguiu articular o Marques rangendo os dentes. “Mas eu não vou morrer, garanto-te que não vou morrer, não vou morrer”, e escapuliu-se para o quarto, como se nada tivesse ouvido, nada tivesse acontecido. No dia seguinte, com grande espanto e mal disfarçada contrariedade da mulher, resolveu retomar os tratamentos de que tinha desistido. Com o apoio efectivo de Isabel, e sem nuna se dar por achado do que sabia àcerca da infidelidade da mulher, a tudo se submeteu, com uma força de vontade impressionante, com uma coragem de que nunca se julgara capaz e, surpreendentemente, ao fim de alguns meses, começou aos poucos a recuperar, a sentir-se mais forte, a ter menos dores, a ganhar cor e apetite, deixando espantado e incrédulo o médico assistente, cada vez que o examinava.

Ao fim de mais algum tempo, cerca de um ano talvez, fez novos exames e, de acordo com o relatório, estava completamente curado. “Estou espantado, meu amigo, foi um milagre, um verdadeiro milagre”. Acabou por admitir o médico.

Passados alguns dias, o Marques estava pronto a voltar ao trabalho, mas antes de o fazer resolveu pedir uma licença graciosa na sua empresa e comemorar a incrível e inesperada vitória sobre a sua morte anunciada, com um jantar num restaurante chique da cidade, para o qual convidou todos os seus colegas, incluído obviamente a sua fidelíssima Isabel, os seus pais e os de sua mulher que se fingia também muito satisfeita com a sua recuperação e alguns amigos desta, entre os quais se contava o amante que ele, com muita astúcia e paciência tinha acabado por identificar e que era, afinal, senão propriamente um amigo, um fulano das suas relações comuns.

Ninguém faltou, claro. Todos vestidos a rigor, uma mesa ornamentada, com fino gosto, um serviço impecável, um convívio simpático e ruidoso e por fim os brindes, entre os quais se salientou pelo seu tom emocionado, o da pérfida Leonor e por fim o do homenageado. Agradeceu a todos o acompanhamento e solidariedade na sua dolorosa provação e terminou com uma declaração inesperada. “E agora, meus amigos, tenho prazer de vos anunciar que aproveitando a licença graciosa que solicitei e me foi concedida, parto dentro de dias para as Seichelles (a escolha deste destino não era inocente, como nós sabemos) acompanhado da minha querida… Isabel, que tanto me apoiou, como sabem na minha doença. Imagine-se o burburinho, as exclamações, os gritinhos, e logo a voz titubeante e pretensamente indignada da estupefacta Leonor… “Então, então e eu…?” Você, minha querida, respondeu impassível o Marques, vai para a puta que a pariu, acompanhada desse chulo que está ali sentado (e apontou-o com o dedo) com quem quem voçê me traia, garantindo-lhe a certeza da minha morte iminente. E que vos faça bom proveito.
.
É esta, em traços gerais a história mirabolante que, boquiaberto e incrédulo, escutei do Nunes. Omito, por desnecessários e fastidiosos, certos pormenores e pícaros comentários com que ele, excelente narrador a enfeitou e lhe deu colorido. Mas juro que ela contem apenas os elementos que julguei necessários ao claro entendimento de quem a leia – o que, espero aconteça consigo, estimado leitor.

Para fim de conversa, que entretanto foi interrompida pela voz do intercomunicador a chamar-me para a consulta, para a qual corri após um abraço ao Nunes e desejo de boa sorte, apurei ainda que o Marques acabou por casar com a Isabel, que tiveram dois filhos e alguns netos e que, velhotes como nós próprios, ainda vivem, numa bela moradia lá para os lados de Viana do Castelo de onde ela é natural.

Pois é. Mais uma vez aprendi algo com uma ida ao hospital. Na verdade, cada vez que entro em algum estabelecimento hospitalar, saio de lá quase sempre mais optimista, por constatar que qualquer problema que me esteja a afectar no momento é, por via de regra, mesquinho e insignificante comparado com os quadros de miséria que ali se me deparam. Desta vez, graças à história do Marques, eu aprendi ainda que, a juntar ao sábio aforismo popular de que “o amor faz milagres” poder-se-á acrescentar “e o ódio também”.


Legal ???
Meu amigão Antonio Gouveia descanse em paz, aqui está o blog dele:

vale muita a pena ler...

Hoje dia 18/05/2010 achei em um site antigo do Sr. Antonio um texto postado por ele sobre minha ida a Portugal, confesso que me emocionou... junto disto tem um texto que escrevi na época para ele... fiquei muito contente... Leiam:



31-8-2005

O Luís Morais é um jovem Brasileiro. Filho de pais portugueses, nasceu e vive em São Paulo. Escreveu-me há dois ou três anos. O pai havia falecido recentemente e rememorando as boas recordações dos tempos de criança, vieram-lhe à memória as cantilenas e as histórias populares com que o pai o ajudava quantas vezes a adormecer. Entre elas havia a história do "mama-na-burra" e das suas mirabolantes proezas face aos dois temíveis adversários, o "arranca-pinheiros" e o "arrasa-montanhas". Só que as façanhas destes personagens lhe vinham à mente como fios soltos de um farrapo velho. do qual pouco mais restava do que difusa e mágica palavra mama-na-burra. Só que o pai já não estava cá para cerzir esse farrapo e reconstituir a história que tanto o encantara.

Indagou junto da mãe e dos amigos, mas ninguém conhecia ou era capaz de reconstituir a história. Lembrou-se de ir à net e à primeira tentativa a pesquisa levou-o direitinho a esta minha Página sobre Moscavide, onde, a dado passo, falo das saudades que também sentia do tempo em que nas noites quentes de verão nos entretínhamos a contar e a ouvir, entre outras, as fantásticas proezas do poderoso mama-na burra. Foi quanto bastou para o Luís me escrever, perguntando se eu seria capaz de reconstituir inteira a narrativa deste conto que seu pai lhe contava, pois já não tinha mais ninguém a quem perguntar.

Claro que já não me recordava da sequência e dos pormenores da narrativa, Então, minha mulher pôs-se em campo e conseguiu obter, junto de um contador de histórias, não uma mas três versões completas - entre as quais uma originária de Trás-os-Montes, mais precisamente de Podence, terra do falecido pai do nosso jovem.

Desde então ficámos amigos e trocamos correspondência com frequência. Este ano o Luís veio pela primeira vez visitar a terra de seus pais e, de caminho, fazer-me uma visita em Almada, onde resido.

De regresso a casa enviou-me este belo texto:

Olha que esse Mama na Burra

Deve ser algum Herói

Uma espécie de Super-man

Ou Bat-man ou qualquer um desses

Ele fez que eu atravessasse

O tão sonhado Rio Tejo, de barco

Olha esse mama na burra

Fez com que eu conhecesse os "Joaquinzinhos" e os Carapaus

Ai, Ai uma tarde em Almada

Com meus amigos Antonio e Adelina

Depois em Cabo Espichel e Aldeia do Meco

Olha que esse Mama na Burra

O mesmo que papai contava quando eu era pequeno

Me levou para conhecer pessoas maravilhosas

Que eu vou guardar para o resto da minha vida

E essas pessoas que justamente estavam

Em um dos momentos mais importantes e felizes da minha vida

Olha que esse Mama na Burra é Valente

Luis Morais

Comentário: É este o poder da internet. E, se outras razões não houvesse ,o simples facto de ter possibilitado a este jovem o resgate das memórias da sua infância, o apaziguamento da dor pela perda do pai/companheiro que era o seu, e o desejo, talvez até então não sentido, de visitar os locais onde o pai, em criança também, ouvira dos mais velhos a história do mama-na-burra - só esse facto. dizia, me compensaria do trabalho de criar e manter esta Página.


E está aqui também o video do conto que fez com que eu conhecesse o meu amigo, que é o do Mama na Burra, este video achei na internet e achei que vinha bem a calhar neste post, para quem quiser conhecer este conto infantil:
http://videos.sapo.pt/6AoVihBmzluAfiJw8yUE

sexta-feira, 30 de abril de 2010

SONHO DE PORTUGAL

Desde que eu era pequeno eu tinha uma terra de tudo perfeito, uma terra em que era só brincadeiras, uma terra dos sonhos.... um cantinho além mar chamado Portugal Isso foi que meu pai fez com minha cabeça, eu cresci assim... pensando que Portugal era uma terra de contos de fadas... a terra do nunca.

O sonho do meu pai era levar todos nós a Portugal (eu, minha mãe e irmã) conhecer a aldeia onde ele nasceu, conhecer o amado irmão dele, o nosso tio Horácio. Mas por acaso do destino nunca conseguimos realizar este sonho do meu pai, de irmos todos juntos... Meu pai tinha umas coisas muito engraçadas no meio destes sonhos, ele queria chegar lá de domingo e dizia que íamos jogando bola na rua quando chegássemos na aldeia dele (Podence) eu de um lado da rua e ele do outro, um tocando a bola para o outro, e ele ia chegar de óculos escuros pra que todos ficassem perguntando de quem se tratava, aquele louco que chegou na missa... aquele louco que queria ir no dia da festa de Santa Eufémia, quem era ele? quem era aquele sonhador?
Os sonhos dele foram moldando os meus sonhos, de tanto meu pai falar na minha orelha sobre Portugal, acabei tendo um amor incondicional pela terrinha. Quando cresci o meu sonho era levar meu pai a Portugal e jogarmos aquela bola de um lado para o outro da rua, dele me mostrar cada canto onde ele passou a sua juventude, mas também por um acaso do destino não consegui, meu pai faleceu, sem dúvida até hoje a minha maior frustração.

Cheguei a sonhar na minha infância que estava eu, minha irmã e minha mãe no avião, mas meu pai não, eu olhava na janela do avião e via meu pai dando "tchau" na cabeceira da pista quando o avião decolava... cheguei a pensar que se tratava de uma profecia, mas depois da morte da minha mãe acabou tudo.

Logo após a morte do meu pai em 2002 prometi a mim que iria a Portugal, iria cumprir o que ele falou, iria a todo custo, iria conhecer o irmão dele, iria a terra dele... quando os ventos me levaram para onde eu tinha que ir, dei entrada na passagem, comprei-a em 10 vezes pela Ibéria, estava marcada para ir Agosto/2005 para baratear eu tinha que fazer escala em Madrid na Espanha, eu comprei em Fevereiro do mesmo ano, imagina a minha angustia para aguardar até Agosto, mês que propositalmente comprei a passagem pois era a tal festa de Santa Eufêmia, eu queria fazer a vontade do meu pai.

Eu não contava os meses, eu contava os dias... contava as horas...
Bem, para encurtar estes meses de sofrimento, já estamos em Agosto... estou dentro do avião na pista, estou dentro do avião pegando embalo para decolar, eu olhando na janela. Imaginem a cena que me veio a cabeça? do meu pai dando "tchau" na cabeceira da pista...
Eu sozinho dentro daquele avião com pessoas estranhas, que não sabiam minha história, que não sabiam o motivo de eu estar ali, não sabiam porque aquele rapaz estava com lágrima nos olhos, com vontade de chorar de soluçar, mas engolindo tudo para ...

Todos os meus sonhos e de meu pai passando pela minha cabeça, tudo... das conversas que nunca terminaram, do irmão, da bola... tudo vindo como um filme na minha cabeça.

 Depois de 11 horas de voo, estou pousando no velho continente, Lisboa, onde meu primo Zé Horácio (filho do meu tio Horácio) me aguardava, fiz a escala, e lá estou eu, agora sim indo para terrinha. Passei todo este tempo desde que saí do Brasil sem dormir, a minha ansiedade não deixou eu piscar os olhos, mas o engraçado que me sentia como se tivesse dormido a noite inteira, estava super bem...
Até que escuto: -"Bom dia senhores passageiros, estamos prontos para pousar no aeroporto de Lisboa, o tempo é bom... e dentro de 5 minutos estaremos tocando o solo".
Então o avião pousa... ele pousou... desci na pista, a minha vontade era fazer como o Papa João Paulo 2° era me ajoelhar e beijar o chão... juro que pensei em fazer isso, mas ia ser um micão (risos) tive que me conter.
 Encontrei com meu primo, aqueles abraços, e por ele morar em Lisboa foi uma grande facilidade para mim, pois ele me deu hospedagem, ele e sua esposa a Paula. Fato que jamais vou esquecer nessa realização de um sonho, eu não tinha condições na época de arcar com despesas, eu mal tinha dinheiro suficiente para tudo, saí do Brasil com o dinheiro contadinho.

Fiquei uma semana em Lisboa conhecendo todos os lugares, sozinho caminhando pela cidade, pois meu primo estava trabalhando e não podia me acompanhar.
Conheci o Mosteiro dos Jerônimos, Torre de Belém, Monumento aos Descobridores, Chiado, Alfama, Mosteiro do Carmo, Castelo de São Jorge, Igreja de Santa Igrazia (Onde está sepultada a famosa cantora portuguesa Amália Rodrigues) comi os famosos Pastéis de Belém (os verdadeiros, pois aprendi que fora de Belém, os mesmo doces são chamados de Pastéis de Natas) tomei café onde o poeta Fernando Pessoa tomava seus cafézinhos que é o Café a Brasileira (inclusive tem uma estátua do mesmo no local, sentadinho ali vendo o movimento e pesando no próximo poema).
Estive também, ai sim com meu primo depois, no Palácio da Pena em Sintra e no Estádio da Luz campo do Benfica, e outros dois dias como ele estava a trabalho o acompanhei em vários lugares no Alentejo.
Foi assim uma realização, as vezes parava e pensava que aquilo era o que eu estava vivendo no momento e daqui a pouco tudo aquilo iria acabar, mas não queria que acabasse... mas não tem jeito né?!

Nesta mesma semana atravessei o rio Tejo de barco eu fui até Almada conhecer o meu querido amigo Antonio Gouveia, ele e sua esposa Idalina me levaram á um dos lugares mais impressionantes que conheci na vida, chama-se Cabo Espichel, fantástico!!
Um dia se alguém estiver pelas bandas de Portugal vão até lá, vale a pena pela vista... Eu volto ainda lá... com certeza.

Passado essa semana fantástica em Lisboa chegou a hora de ir para o norte de Portugal, Bragança e finalmente conhecer meu tio Horácio, e chegaríamos no final de semana da festa de Santa Eufémia.
Meu primo e eu fomos de carro, foram 400km de viagem, desta vez tive a impressão que foi muito rápido...
Chegamos a Macedo de Cavaleiros, que é o distrito da aldeia do meu pai. Em Macedo que é onde meu tio mora hoje em dia na casa de outro meu primo Tó Luis, então veio o momento do encontro.
Subi as escadas da casa do meu primo Antonio Luis, e pedi para que o Zé Horácio filmasse tudo dali pra frente, eu tinha levado uma filmadora que a minha madrinha havia me dado de presente.

Então, finalmente... estava lá meu tio Horácio parado na minha frente, estava ali, tão real, tão pertinho, olhando para mim e sorrindo... o abracei... forte, e as vezes parava para olhar se era ele mesmo, ele se emocionou também, e sei que ali nas lágrimas dele estava meu pai... aquele abraço era para meu pai também, certos momentos da vida de uma pessoa não tem dinheiro que pague, este foi um na minha vida... não tinha preço, não tinha tempo... passado, presente e futuro se misturaram ali em uma grande ciranda de emoções. Entrei na casa, depois desse primeiro momento, sentamos e ficamos olhando um para o outro e chorávamos, ele se levanta me mostra um retrato de sua esposa falecida (Minha tia Celina) e eu tinha carteira fotos da mãe e do pai dele, que meu pai havia deixado e eu guardei, mostrei a ele, o engraçado que fazíamos isto sem nenhuma palavra, não conversavamos, só nos olhavamos, e choravamos em silêncio... O que tínhamos para falar? os nossos corações que conversavam... Fazia 35 anos que ele não via meu pai, e eu estava ali representando o sonho do louco do meu pai.


No outro dia era a festa de Santa Eufémia, e eu estava lá cedinho em pé em frente a igreja (isto já em Podence na aldeia) eu e meu tio, para a procissão... a banda tocando, e cadê o sonhador de óculos e com a bola? ele não estava, não de corpo presente... mas dentro de mim, estava lá sorrindo e brincando comigo...
Nesta viagem estive também na aldeia de minha mãe, fui recebido como um rei lá... muito, muito carinho de todos os tios dela comigo... Chama-se Agua Revez que é sub distrito de Valpaços... Encontrei uma amiga de infância de minha mãe a Mariazinha, foi muito legal também...

Olha, esta viagem foi perfeita, ou quase... Faltou o cara que me ajudou a sonhar...

Mas meu sonho agora é que ainda vou jogar bola com meu filho lá em Podence, quando eu tiver este filho... eu de um lado da rua, e ele do outro... e chegar de óculos escuros na missa (claro!!)... Os sonhos tem que ser completos... Não é?! de filho do sonhador, para o próprio sonhador...


O que é a vida sem um sonho?

segunda-feira, 1 de março de 2010

BICICLETA

Eu nunca olhei bicicleta com bons olhos... Bom... nunca não, nem sempre foi assim...

Meu pai era um amante de ciclismo, e sempre me incentivava a andar em duas rodas, e eu confesso que gostava muito, ele me contava as suas aventuras em duas rodas quando era jovem, e eu via o brilho nos seus olhos, eu era apaixonado pelas histórias. A primeira bicicleta que andei foi a da minha irmã, ela já andava sem rodinha e queria me incentivar a andar sem também, mas ai eu tinha medo, claro! Então ela me disse vai pedalando que eu vou do seu lado segurando a bicicleta, ela disse para eu ir pedalando com toda minha força, ela ia correndo atrás segurando no banco da bicicleta, ela era minha segurança, mas então olhei para trás... Cadê minha irmã?????? então eu pedalava mais rápido com medo de cair.... e enfim aprendi a andar de "bestaquieta" (como costumava chamar)... Eu devia ter uns 6 anos.
Mas passaram os anos e queria ganhar minha própria bicicleta, eu já tinha 9 anos de idade, enchi o saco dos meus pais, até que todos meus amigos ganharam, minha mãe resolveu me dar também... então chegou o natal daquele ano, acho que foi o natal mais legal da minha vida, meu pai fechou a lanchonete no dia 24 de Dezembro e fomos todos para o Mappin (quem lembra do Mappin ?)... Eu queria uma BMX-Pantera, que era a bicicleta febre do momento, tinha uma plaquinha na frente tipo uma motocross... era a coqueluche da molecada... Mas chegando lá no Mappin havia acabado a tal da bicicleta, tinha um outro modelo que era a BMX-Carrera, era quase igual, só que mais cheia apetrechos, pintura diferente e mais cara... só que não tinha a "porra" da plaquinha na frente... com a numeração... eu com medo de meus pais mudarem de ideia disse que queria essa mesmo e nem toquei no assunto da placa... com medo de anularem a compra por acharem que não iria gostar... Compraram a minha sonhada bicicleta, só minha... na cor laranja... a bicicleta era totalmente laranja... até os pneus... Saímos da loja e eu tenho uma imagem gravada na minha cabeça que nem que se passe uma vida inteira vou me esquecer, meu pai carregando no ombro aquela caixona com minha bicicleta dentro no meio do povão, ali perto da Praça da República no centro de São Paulo... eu de mão dada com minha mãe atrás, olhando aquela cena e dávamos risada... Isso jamais vou me esquecer.
Chegamos em casa meu pai foi montar a minha bicicleta, mas meu pai era muito desajeitado com essas coisas, tivemos que chamar o vizinho, o Sr. Bernardo... Só que era dia 24 como falei, e eles tinham que preparar a ceia de natal, e dei uma volta na rua, mas tive que guarda-la porque iria toda a família para casa. Passou a noite de natal e eu louco para andar com minha "magrela" e nada, dormi com a bicicleta do lado da minha cama naquela noite e com a mão agarrado nela... Mas a história dessa bike poderia ter sido bem pior...
Passado + ou - 1 ano, a bicicleta se fosse carro já teria feito todas as revisões, porque eu andava muito com ela, para cima e para baixo o dia inteiro, chegava da escola pegava a bicicleta, só largava para jogar bola, e voltava para a bike... tentava o dia inteiro empinar a bicicleta (risos), umas das minhas maiores frustrações foi não aprender a andar com a roda da frente empinada...
Enfim, um belo dia a tal bicicleta quebra o freio e logo em seguida fura o pneu, era um sábado pela manhã, pedi dinheiro para minha mãe para ir consertar, e ela estava de saída para ir para lanchonete e cismou que queria que eu fosse junto... mas eu cheguei a teimar com ela que não queria (ela jurava de pé junto que teve uma premonição naquele momento) mas depois de muito insistir ela me deu uns trocados, e fui para o famoso japonês da rua de cima que consertava as bicicletas... uma bicicletaria que tinha por perto. Cheguei no tal lugar e o japonês me disse que o dinheiro que eu tinha ou dava para consertar o pneu, ou consertar o freio... Adivinha que uma criança de 9 anos consertaria para poder andar com a bicicleta? claro que o pneu, o freio eu brecava com o pé... e assim ele o fez, consertou o pneu furado. Peguei a bicicleta e fui embora, tinha uma ladeira bem íngreme que eu tinha que descer, e todas as outras vezes que eu tinha descido eu tentava sem apertar o freio, mas nunca havia conseguido, pois lógico a velocidade era muito alta. Mas na minha cabeça de jegue aquele dia, eu quis me auto desafiar, pensei que hoje não teria como eu brecar, então logo não me trairia... Até hoje não sei como tive essa ideia de asno. Para não pegar tanta velocidade eu desci até o meio da ladeira segurando a bicicleta... Quando chegou, respirei fundo (parecia que iria ganhar uma medalha olímpica por isso) e fui soltei... a bicicleta começou a tomar uma velocidade impressionante, eu comecei a me apavorar, porque não dava mais para segurar no pé, comecei a fazer uma curva para direita que tem na ladeira, já quase deitando a bicicleta, depois tinha que fazer outra curva para esquerda, mas... não consegui... fui reto... até onde lembro eu bati a roda da frente da bicicleta no portão de uma casa... apaguei... uma pancada imensa. Acordei sentado na guia da calçada, com a mão na boca e sangue para todo o lado... ai eu só lembro de flashes, eu pedindo para me levantarem e eu não conseguia ficar em pé, um monte de gente em volta me olhando, rostos conhecidos mas não conseguia lembrar o nome, eu perguntando onde estava minha bicicleta... Fui para o pronto socorro... Quebrei o pé, o nariz, luxação em vários lugares do corpo, meus dentes ficaram todos moles... Testemunhas dizem que bati no portão, depois fui jogado contra um poste e por fim bati em um muro... tipo um boneco sendo jogado de um lado para o outro.
Cheguei em casa parecia uma múmia todo enfaixado, e eu tinha que ir ainda para o hospital mas tinha que esperar meus pais chegarem da lanchonete... Meu pai havia recebido a ligação avisando do ocorrido, mas ele como era a tranquilidade em pessoa, não falou para a minha mãe... esperou fechar a lanchonete, e naquele dia tínhamos um casamento de uns amigos para ir... minha mãe no caminho para casa disse ao meu pai que tinham que comprar o presente, no que meu pai muito calmamente disse que achava que eles não iriam ao casamento, porque eu havia sofrido um grave acidente de bicicleta... Nossa!!! quase que tem outra tragédia aquele dia na família... minha mãe quase matou meu pai...(risos)
Chegaram meus pais, foi aquele drama quando minha mãe me viu, lembro muito desta cena também. Fomos para hospital, fiquei de observação... Então lembrei minha mãe que eu tinha atrapalhado ela, pois ela não iria assistir o último capitulo da novela que ela tanto gostava e que acompanhou desde o começo, que era a novela Roque Santeiro... Mas ela me disse que não tinha problema, que aquilo eram todos personagens de ficção e eu era a vida real dela...
Depois deste dia, do dia do tombo, sempre fiquei com medo quando minha mãe teimava que era para eu fazer alguma coisa, ou não fazer... as vezes fazia as coisas contra a vontade dela, só que ficava com c# na mão....

A visão sobre bicicletas na minha vida fizeram com que não gostasse muito delas...